Solta esse peso, mulher!

Ombros tensos, maxilar preso, uma culpa por qualquer ideia de prazer. Sensações constantes nas nossas vidas, e nada disso está certo.

É insustentável viver assim. É caro viver assim. Quanto você tem gastado ultimamente na farmácia? 

E não só com você, mas com a sua família.

Sinto a velocidade da nossa rotina a partir da rotina que surge dos estudos da Ivy. Escola, ballet, contemporâneo, trabalhos para casa, fisioterapia. Não há tempo para descansar. Não há espaço para ser criança. Deixar de se divertir começa a deixar de ser importante na vida dela e isso é triste. 

E isso é na nossa vida. Com uma casa pequena, poucas roupas, tentamos sempre simplificar. 

Vejo a rotina dos colegas da minha filha. Além da dança, ou do basquete, aulas de inglês, centro de estudos, natação, catequese, missa ao domingo. A rotina pesa, o emocional não aguenta. É mais fácil, então, pagar uma psicóloga do que deixar as coisas mais leves. Agradeço pela vida que levamos aqui em casa. 

Como é curioso notar que o desconfortável é mais viável, que o mais complicado soa melhor. A tal “zona de conforto”, dizem que é assim porque é conhecido, e entendo que seja. Mas todas nós sabemos o quão desconfortável é, assim como o quão mal nos faz.

Sendo assim, como poderíamos romper essa tela que obscurece a nossa visão, que deturpa o nosso sentir, que nos impede de escolher o que é melhor pra gente?

Bem, pra isso não existe uma solução, existe a liberdade de escolha que vê quem decide aceitar as coisas como são. Não se trata de dizer sim para as coisas ruins e ponto, mas de incluí-las como parte da realidade, e que, por isso, podem ser alteradas. Tudo muda e tudo na vida é passível de mudança. 

Duas coisas impedem as pessoas de soltar o peso que colocam nas suas costas, duas coisas me impediram por muito tempo de o fazer. 

A primeira é achar que carregar peso é socialmente digno, nos faz importantes aos olhos dos outros. Mas a verdade é que quem realmente nos ama fica muito mais feliz por nos ver dentro de uma vida leve, dentro de um corpo saudável, dentro da vida que sempre sonhamos em ter (e essas pessoas geralmente não são quem achamos que deveriam ser). A primeira pessoa que deve te parabenizar por estar leve é você mesma.

A segunda é o apego ao hábito de reclamar, ao hábito de se deixar envolver em tramas e dramas da vida. Isso é algo que nos une, é algo que gera empatia e conexão, só que não é nada construtivo, muito pelo contrário. Quando algo difícil acontece é mais fácil sofrer e perder o controle das emoções e mostrar como estamos culpadas, chamam até isso de “mimimi”, só que o mais engraçado é que “detesta mimimi” é quem mais o faz. A dor no corpo é uma informação. A dor na vida é uma oportunidade. Diante da dor nós crescemos. Diante do sofrimento, nos encolhemos. 

Soltar o peso, até mesmo o peso da dor, significa assumir a responsabilidade das próprias escolhas. Escolher não sofrer, escolher agir de forma consciente apesar de todo um subconsciente que conta histórias passadas. Soltar o peso significa se dar espaço para se integrar em si mesma, integrar essas formas de pensamento, integrar corpo e mente, pensar e sentir. 

Só quando solto o peso sinto que sou eu mesma. E olha que já até acreditei que o peso era tudo que eu era. Só que eu não sou um peso, não sou o peso que teimo em colocar sobre as costas.

O bom é que saber do peso me faz soltá-lo cada vez mais rapidamente.

Opa, esse peso não é meu. 

A postura muda, a expressão muda e escolho o próximo passo.

Como é bom saber que o que é meu não me pesa. 

Solta esse peso, mulher! 

Com amor,

Cíntia Thurler

Cíntia Thurler

Escritora | Mindfulness Neurocognitivo | Ecopsicologia

Escrevo sobre atenção, ética do cuidado e crise ecológica.

Autocuidado como base para mudanças individuais e coletivas.

https://cintiathurler.com
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