Aquilo que eu luto me pede luto
Falar de luto é curioso na nossa sociedade.
Parece um tabu, algo que não deve ser mencionado.
Algo que incomoda, que deve ser silenciado.
Afinal, precisamos “ficar bem”.
Como se o luto fosse o oposto disso.
Assim, já parto do princípio de que, ao falar disso, não existe de forma alguma nenhum agouro ou desejo de que alguém especial da sua vida, ou qualquer pessoa na verdade morra.
Falo do luto como algo que faz parte da vida.
A morte faz parte da vida, que a gente queira ver, quer não.
E a gente não precisa olhar para a vida como se fosse o nosso último dia, mas se como a cada momento que morresse deixasse a oportunidade para que cada momento que nasça seja o primeiro.
As árvores perdem folhas a todo momento. São mortes.
Células no nosso corpo morrem a todo momento. A pele descama, solta as células mortas, os cabelos caem, o que mais podemos notar?
Naturalmente as coisas nascem e morrem.
Mas, uma das coisas mais incríveis que temos desenvolvido como seres humanos é a vontade de impedir esse processo. Nos agarramos aos pensamentos, às emoções, às memórias. Vamos impedindo o movimento da vida, estagnando, como se isso nos protegesse de ameaças.
Lutamos internamente para não vermos o que precisa ser curado.
Lutamos internamente para que as emoções não se expressem.
Lutamos tanto até mesmo contra quem realmente somos.
E tenho notado cada vez mais que tudo o que eu luto internamente, só precisa de espaço para que eu possa sentir, e fazer um luto.
Esse ritual que honra a vida do que já morreu.
Olhar para o que já foi tão importante em mim, mas que agora não faz mais sentido.
Sabe, querida leitora, toda vez que eu escolho soltar as minhas armaduras invisíveis eu sinto uma leveza enorme.
Meus ombros suavizam, o meu coração acalma, a emoção extravasa em lágrimas, é tão bom me render à paz. Me render ao momento, confiando na vida por si só.
Será que fazer luto é abrir espaço para a paz?
Bem, não é sustentável viver em luta.
Cansa demais aguentar uma armadura e segurar armas. Coletar munições e guardá-las perto.
Pode parecer nobre, uma linguagem figurada…
Mas pra quê cultivar referências de guerra internamente se somos capazes de ver o quanto a guerra aqui, do lado de fora, é feia. Olhe para o que acontece ao seu redor, não finja que não acontece, não normalize os assaltos, os atos de violência, eles não são naturais.
É preciso haver consciência do que se passa e fazer essa escolha interna, que só depende de nós.
Talvez você não consiga evitar aquela autocrítica dura…
“Deixa de ser estúpida!”
Mas, ao notá-la, pode oferecer gentileza. Mão no coração. Feche os olhos.
“Eu sinto muito que você se considere estúpida. Está tudo bem.”
E após esse breve luto, abra os olhos para o momento que nasce, para a oportunidade de fazer diferente.
Tudo o que eu luto, merece um luto.
Fica bem.
Com amor,
Cíntia Thurler