Perdoar como regulação interna
Perdoar é um dos atos humanos mais desafiadores e, ao mesmo tempo, mais libertadores. Para muitas pessoas, o perdão está relacionado à espiritualidade ou à moral, como algo a se dar ou a se receber. Como se fosse algo que não nos pertencesse.
Mas a ciência também tem algo a dizer sobre como perdoamos e o que acontece em nosso cérebro durante esse processo.
Perdoar não é simplesmente esquecer ou aceitar uma ofensa. É um processo ativo de regulação emocional, no qual deixamos de alimentar sentimentos de raiva, ressentimento e desejo de vingança. E faz sentido que seja assim, na nossa evolução social perdoar significava não lutar e não matar membros do próprio grupo, o que significaria uma perda expressiva na capacidade de sobrevivência.
Segundo estudos de neuroimagem, o perdão envolve diversas regiões cerebrais, principalmente o córtex pré-frontal ventromedial, responsável pelo julgamento moral e pela empatia, e a amígdala, ligada à resposta emocional, especialmente o medo e a raiva.
Pesquisas mostram que quando uma pessoa escolhe perdoar, há uma diminuição da atividade na amígdala, o que significa menos reatividade emocional, e um aumento da atividade no córtex pré-frontal, indicando maior controle cognitivo e empatia. Em outras palavras, o cérebro literalmente “se acalma” ao perdoar.
Além dos benefícios mentais, o perdão também impacta diretamente a saúde física. Estudos apontam que pessoas que perdoam mais facilmente têm níveis mais baixos de cortisol, hormônio do estresse, além de apresentarem melhor funcionamento cardiovascular e menores taxas de depressão e ansiedade. Isso mostra que o perdão não beneficia apenas o outro, mas, principalmente, a si mesma.
E como não poderia ser diferente… como o mindfulness entra nesse processo?
Bem, praticar mindfulness consiste em focar a atenção no momento presente com aceitação e sem julgamento. Quando aplicado ao contexto do perdão, observamos os sentimentos difíceis sem nos identificarmos com eles; reduzimos a ruminação, aqueles pensamentos repetitivos, o que alimenta o ressentimento; aumentamos a compaixão e a empatia, inclusive por quem nos feriu; fortalecemos a autorregulação emocional, por meio da ativação do córtex pré-frontal.
Estudos demonstram que programas baseados em mindfulness são eficazes em promover o perdão, principalmente porque ajudam a pessoa a quebrar o ciclo automático de pensamentos e emoções negativas.
Mas atenção, vejo que muitos profissionais recomendam a prática de compaixão para promover o perdão, só que são momentos nos quais nos colocamos em contato com memórias difíceis e é importante estar com a atenção fortalecida para estar presente enquanto isso acontece e se cuidar com gentileza caso algum gatilho de trauma seja acionado. Se você nunca praticou antes, não faça através de uma meditação qualquer gravada, faça acompanhada.
Começar por reconhecer os momentos em que já perdoou alguém ou se perdoou pode ser interessante, ou seja, notar que não existem sentimentos negativos relacionados à alguma situação que te machucou no passado. Qual situação você sente que já perdoou? Aquela memória que te incomodava e que agora você pode falar tranquilamente sem se sentir mal com isso?
Treinar a atenção no corpo através das práticas de mindfulness também fortalece a nossa capacidade de permitir que o perdão aconteça, já que esta prática nos confere o fortalecimento da nossa habilidade de regulação interna, de forma que podemos ser capazes de relaxar músculos tensionados diante de memórias difíceis, sinalizando para o cérebro que estamos em segurança.
É importante notar com clareza que o perdão requer tempo para processarmos a informação e sermos capazes de nos colocarmos no lugar do outro através da imaginação, outro fator importante; e de consciência para escolhermos deixar os sentimentos negativos passarem.
Para concluir, vale a pena relembrar que perdoar não é esquecer, justificar ou aprovar o que nos feriu. É um ato de regulação interna, e que, embora a ciência tenha identificado e avançado na sua compreensão, é preciso considerar sempre a complexidade da vida e dos nossos sentimentos. O mindfulness trabalha a gentileza como recurso para lidar com o que notamos em nós a cada momento. O perdão nos capacita a reconhecer a dor sofrida sem deixar que ela nos defina, permitindo que a gente se cure e siga em frente com a vida. É algo íntimo, para ser sentido internamente e vai acontecer do seu jeito, no seu tempo.
Como essa visão do perdão chega até você?
Com amor,
Cíntia Thurler