Panquecas e Disponibilidade

Como seria fazer o que você quer fazer? 

Como seria cuidar da forma como você gostaria de cuidar? 

Pode ser que vários pensamentos sobre o que você não consegue ou como não consegue fazer isso pipoquem imediatamente na sua mente, e está tudo bem. Afinal foi o que acabou de acontecer comigo. Mas sabe…

Um dia desses eu acordei atrasada numa manhã escura de inverno. Acordei com a sensação tão normal de que “odeio acordar no escuro”, “odeio fazer a minha filha correr de manhã porque eu acordei tarde”, e daí começa aquela espiral nada agradável de pensamentos. Só que nessa manhã em especial eu percebi isso acontecendo, como se eu olhasse de fora. 

Sentei-me na cama, coloquei os pés no chão, respirei fundo e ao invés de começar a correr pela casa cumprindo uma rotina inconscientemente pré-determinada, me alonguei. Estiquei as costas, massageie os ombros que já estavam tensos, acendi uma luz fraca e ali falei para mim mesma:

“Os invernos são assim, você já sabe. Reclamar não vai mudar a luz do dia lá fora e está tudo bem, e só por hoje não vou reclamar.”

Acordei a minha filha, com gentileza, avisando que estávamos atrasadas e que precisava contar com ela. Enquanto ela trocava de roupa num ritmo que eu consideraria devagar demais, fui para a cozinha. Os bichos já me acompanham e esperam, eu normalmente cuido deles primeiro no estado de espírito “resolvendo isso de uma vez”, mas decidi que cuidaria deles com atenção depois. Olhei em volta e pensei que “não tem nada para o pequeno-almoço”, ou café da manhã.

Respirei, sorri com os meus pensamentos e eu sabia que tínhamos ido ao mercado, cozinhado no final de semana, é claro que tinha comida. Fechei os olhos e os abri novamente. Vi um pote com creme de avelã que fiz na tentativa de fazer a nossa própria Nutella (o que deu muito certo, afinal), o coloquei na mesa. Abri a geladeira e lá tinha o copo do liquidificador com massa de panqueca pronta, sorri orgulhosa de mim. 

Veja bem, na noite anterior notei que tinham umas maçãs passando do ponto, o que faz com que ninguém as coma, assim, as bati no liquidificador e olhando para aquele purê, adicionei os ingredientes de panqueca e, como já estava cansada, só coloquei na geladeira o jarro assim mesmo. 

Peguei a massa, aqueci a frigideira e enquanto ia fazendo panquecas, fiz um capuccino, algo que a Ivy adora. Coloquei tudo na mesa, em frente à cadeira e foi quando ela chegou. Parece que ganhou mais disposição ao perguntar “Isso é para mim?”. 

“Sim filha, é para você”, eu disse com um sorriso bobo. 

Ela se sentou e comeu com uma satisfação que me encheu de amor, alegria e satisfação.

Ela escovou os dentes, terminou de se arrumar, eu troquei de roupa, a acompanhei até a escola. Chegou na hora da aula, nem um minuto de atraso. Também não houve atrasos no meu dia, curioso, não é? Tudo isso aconteceu em 30 minutos no total.

Isso, para mim, é estar disponível para cuidar. Algo que surge do cuidado consciente comigo mesma (que, neste dia, foi só perceber essencialmente). E em geral é mesmo aquele gesto que parece tão óbvio e simples. Nossa, como nós complicamos a vida.

Mas enfim… 

Como você pode se cuidar nesse momento para sentir essa disponibilidade?

Como seria pensar sobre o tempo dessa perspectiva?

Não precisa pensar nem encontrar respostas, apenas permitir se perguntar. 

Com amor,

Cíntia Thurler

Cíntia Thurler

Escritora | Mindfulness Neurocognitivo | Ecopsicologia

Escrevo sobre atenção, ética do cuidado e crise ecológica.

Autocuidado como base para mudanças individuais e coletivas.

https://cintiathurler.com
Anterior
Anterior

Deixar leve

Próximo
Próximo

Sinto falta da natureza