Sinto falta da natureza
Sinto falta da natureza, hoje está sol lá fora e vou sair. Respirando nessa manhã fria de inverno, sinto amor pela Ivy, pelo Keny, pela nossa casa e pela nossa vida. Vejo o mofo nas paredes e nos tetos, coisas que acompanham a época (um processo de limpeza sem fim), vejo os acabamentos por fazer, os problemas por resolver, mas pela primeira vez na vida eu confio. Confio e simplesmente não sei em quê, só o faço.
Vejo a pressa se apressar dentro de mim, a vontade de correr, de fazer mais e mais, de fazer o impossível em tempo recorde e ainda ter tempo. Reconheço que a vida não é assim, eu já tenho tempo e sou uma só. Viver vem primeiro, as coisas vêm depois. A saúde vem primeiro. A nutrição vem primeiro. O amor vem primeiro. O que mais?
Desde que me permiti ser parte da natureza sinto que pertenço e me vejo fechada entre paredes, sim, há natureza aqui dentro, mas ainda assim a lua cheia brilha lá fora. A necessidade de descarregar e recarregar a energia com os pés descalços no chão, de sentir o sabor do mar na minha pele, o cheiro de terra molhada e do ar limpo depois da chuva. Vontade de sentir o vento frio na pele sem uma camada de plástico me cobrindo, vontade de transpirar livremente sem um elemento químico a bloquear.
Essa vontade toda, é na verdade, um chamamento da minha saúde para desintoxicar, liberar e curar. E ainda assim, cá estou eu em frente ao computador pensando como vou fazer isso se encaixar na minha rotina. A casa com quintal é um sonho que sinto cada vez mais perto, mas ainda assim a necessidade se faz presente cada vez mais nítida e quando é assim, precisa acontecer.
Tal como quando a bexiga está cheia ou quando a fome aperta. Já notou que quando a necessidade grita e a gente ignora ou desvia a atenção ficamos dormentes à ela? Não é assim que vou ficar, é assim que estive todo esse tempo. Idolatrando a natureza por detrás de uma tela, me protegendo do que me protege. Que medo é esse? Que necessidades loucas são essas?!
Tudo o que temos feito é tapar as nossas necessidades reais da mesma forma que tapamos os sintomas, que ultrapassamos uma dor de cabeça com paracetamol sem nem sequer olhar para o porquê dela estar ali, sem se importar.
Sem se importar.
Essa escassez de importância. Esse olhar constante para o umbigo, nos impede de ver o quadro geral, nos impede de ver que pagamos cada vez mais caro pela água que usamos, pela água que bebemos, algo que nos é generosamente oferecido pela natureza.
Escassez de importância. Essa consciência de ver que o que sai do fundo escuro da terra não pertence ao ecossistema aqui de cima, esse negrume corrompe a nossa alma, cobre os nossos corpos, é matéria prima das nossas vidas e fonte principal de energia social. Assim, vamos fazendo da escuridão a nossa caminhada. É energia morta, que tinha o seu lugar de descanso. Agora, cobre as nossas vidas.
Escassez de importância. A falta de cuidado com o outro que nasce de um interior “cuidado” pelo que o dinheiro pode comprar. Vazio. Solidão. Primeiro eu. E assim se faz o poder dos grandes que dizem “primeiro eu” e se sentem no direito de envenenar com mentiras criadas artificialmente as mentes dos mais jovens. Não somos seres humanos, somos consumidores cegos, mandados, retardados.
Mas eu confio.
Há solução porque há, ainda assim, quem se importe. Há quem se cuide para poder cuidar. Afinal, mesmo sem o contato com a natureza, eu própria sou natureza. O contato comigo me permite sentir a vida e me relacionar com o que está e não está saudável.
Desse lugar, desse corpo, que dá espaço para o que é do jeito que é e que leva em conta a saúde do mundo como fator fundamental para a sua própria saúde, cria-se a disponibilidade de acolher, de acompanhar. Semeia e nutre a força para mudar através de um cuidado gentil.
Enquanto há natureza, há humanidade viva em nós.
A partir desse relacionamento, que ainda não é lá fora, mas que acontece aqui dentro, sei que inspiro pessoas a verem com novos olhos a vida enquanto vou aprendendo, e talvez isso seja o caminho. Assim, vou acalmando a minha pressa.
Sei também que sou um processo em andamento, uma vida em desenvolvimento e acho que está tudo bem, afinal, o que é a vida senão justamente isso?
Eu confio e me importo e sigo cultivando paciência.
Com amor.
Cíntia