Como Sair De Um Caixote

No Brasil nós temos uma expressão que é “tomar caixote” e ela se refere ao momento em que uma onda nos derruba, nos arrasta, e geralmente nos faz de bobos na frente de todos na praia. 

Sim, os caixotes têm o seu risco, mas a princípio é só uma pancada, um arrastão, respirar um pouco de água salgada, se engasgar, e perder, nem que seja de leve, a dignidade. Posso dizer que é divertido ver os outros “tomando caixote”, mas que não é tão divertido assim tomar um. 

Falo dele hoje porque estou escrevendo uma história que nos apresenta uma analogia em todos os sentidos entre o mar e as nossas vidas. Nele já falei de profundidade, temperatura, biodiversidade, luminosidade, mas não tinha chegado nessa zona entre marés ainda. Até eu viver essa fase e notar o quão importante é refletirmos sobre o momento em que a vida nos dá caixote.

Por vezes um, por vezes apenas uma rasteira, mas outras vezes, como aconteceu comigo, uma série de caixotes que te faz perder a noção do que é cima e do que é baixo. E quando passa, te deixa assim em suspenso, e pior, sem saber se já passou mesmo. Neste momento estou naquela fase em que ficamos meio perdidos, debilitados, mas precisamos nos recompor rapidamente, senão tudo se repete novamente.

Curioso, até o tempo que as ondas dão entre si é oferecido pela vida também. Tempo, vou adicioná-lo ao livro. 

Enfim, hoje não vou te contar a minha situação tensa/triste, te digo apenas que foi difícil, que passei por momentos de abusos psicológicos, de grande tensão, de tentativa de agressão e de perseguição, de pura maldade, daquela gratuita, que achamos que não existe.

E nesse momento pós caixote, nesse respiro, o que podemos fazer? 

Como seguir em frente sem se indignar com a injustiça?

Como fazer tudo o que amamos se pensamentos raivosos tomam conta da nossa cabeça?

Como descansar se o nosso corpo simplesmente não relaxa?

Como agradecer por tudo o que temos de bom se foi justamente isso que foi ameaçado?

Como não paralisar?

Como se levantar e sair da zona de arrebentação?

Bem, uma coisa que aprendi há um tempo e que tem sido muito útil é não tentar tirar a raiva ou a tristeza de mim, não alterá-las, mas agir com elas de uma forma consciente. 

Sentí-las não é agradável, mas elas são extremamente úteis para nos permitir ver as coisas de uma forma diferente da que estamos acostumadas, conseguimos nos distanciar um pouco da nossa própria interpretação e ver as coisas com mais clareza. 

Para sentí-las, manter o corpo em movimento é fundamental, para soltar o estado de estresse, se sacudir como um cão, se alongar como um gato, saltar como um canguru. Se a sua situação é difícil, isso não vai te custar nada.

Corpo cuidado, respeite as suas necessidades. Não se force a rir, a falar. Comunique como se sente e peça gentilmente por espaço (ou por um abraço longo e silencioso).

E agora a parte mais difícil, se dê tempo e espaço. Não há cura sem descanso, sem sono. Tome um chá de camomila com lavanda, você não vai resistir ao sono. Não se cobre por dormir a mais ou a menos, o que for é suficiente para este momento. Para fortalecer a paciência, controle a respiração, deixe-a mais longa e lenta sempre que a mente quiser apressar as coisas.

E a atitude certa vai surgir, é um processo de, no fundo, no fundo, confiar na vida, em Deus, ou no que você acreditar.

Desde os caixotes que tomei, ontem precisei me forçar a fazer algumas coisas, mas eu já ia para a segunda semana sem entregar o trabalho mais importante da minha empresa, a minha escrita, e não apenas isso, sem fazer o que amo, sem viver o que acredito, e tá tudo bem, mas chega. Não fazer o meu trabalho significaria dar margem para todas as coisas ruins que acontecem, significaria dar vitória a quem me feriu. E por mais que saibamos disso, costumamos entrar num looping de descontentamento que passa a incluir a insegurança, a culpa, a autocobrança e a validação interna de que não valemos nada. Eu não vou mais por aí. E assim que a minha mente começou a tocar esse disco ontem a noite, a pensar que “mais valia parar porque nada do que faço é importante mesmo” eu disse em voz alta para mim: “não mais”.

E cá estou eu, te escrevendo juntinho com a raiva e com a tristeza, mas ao mesmo tempo, te informando de tudo o que se passa em mim para que, quem sabe um dia, essas palavras te inspirem a levantar depois de um caixote. Até porque, por mais que a gente saiba que vai levantar de uma forma ou de outra, se escolhermos como levantar e o que fazer a seguir, tornamos todo esse processo num aprendizado potente do qual nos orgulhamos. 

Com essa história toda eu notei que estava filtrando demais tudo o que escrevia e publicava aqui, que me segurava no ponto “entre línguas” que estou (nem português do Brasil, nem português de Portugal), que corrigia demais, e evitava dizer muita coisa importante. E decidi avançar, escrevendo como amo fazer, sem filtros e sem regras. Com humanidade, pura e simplesmente. E me entregar a este processo diariamente.

Depois desse caixote confio na minha decisão de não deixar mais de lado tudo o que amo fazer em detrimento de tudo de ruim que me acontece. Estar aqui é a minha verdadeira prioridade. 

Escrever e expressar a minha arte “apesar de”. Conferir uma perspectiva diferente, sobretudo mais gentil, num mar de pessoas que não valoriza a guerra, mas que deixa que ela guerras atropelem as nossas vidas porque é inconveniente fazer diferente. Fortalecer a coragem para que possamos aproveitar a vida.

Obrigada por estar aqui.

Com amor,

Cíntia Thurler

Cíntia Thurler

Escritora | Mindfulness Neurocognitivo | Ecopsicologia

Escrevo sobre atenção, ética do cuidado e crise ecológica.

Autocuidado como base para mudanças individuais e coletivas.

https://cintiathurler.com
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