Mudança e Felicidade
Faz sentido que a sua forma de trabalhar mude, faz sentido que os seus gostos mudem, que você queira fazer as coisas de uma forma diferente. Faz sentido mudar quando o que já existe deixa de te fazer feliz.
Só que quando promovemos essa mudança que tanto queremos, acontece uma limpeza, dessas que a chuva forte faz com o ar e com o solo, carregando as folhas secas. E embora essas mudanças sejam muitas vezes inevitáveis nas nossas vidas, há pessoas em torno de nós que não gostam delas, que ficam tristes pela nossa mudança, criticam e por vezes são cruéis com o nosso processo. Nesse momento, uma escolha precisa acontecer:
Ou sustentamos tudo aquilo que não queremos mudar para agradar ou até mesmo manter por perto essas pessoas, vivendo num esforço enorme.
Ou deixamos, soltamos, o que não quer mudar com a gente. Fazemos isso com todo o respeito, fazemos o luto necessário pelo que ficou e passamos, então, a sustentar a própria felicidade.
O que você escolheria?
Independentemente da sua resposta, saiba que está tudo bem. Ambas requerem coragem.
Até porque, cá entre nós, ser responsável pela própria felicidade é difícil demais, mas trata-se de um percurso feliz por si só.
Mas afinal, é preciso haver mudança para que haja felicidade?
Bem, se você se sente infeliz de alguma forma, a única maneira de se sentir diferente é mudar, não é mesmo?
Só que nós resistimos às mudanças e muitas vezes isso acontece de forma inconsciente. Não temos necessariamente culpa por isso (mas não deixamos de sermos responsáveis). E por ser alguém que , por diversos motivos, aprendeu a viver relativamente bem com a mudança, eu quero te dizer que:
Para mudar, você não precisa lutar.
Para mudar, você não precisa travar guerras.
Eu sei que estamos conscientes das guerras travadas no nosso mundo e que a solução delas estão fora do nosso alcance.
Mas estamos falando de ambiente interno, nesse lugar em que podemos escolher. E quanto mais nos conhecemos e praticamos essas escolhas de forma consciente, maior a nossa liberdade para sentir a vida tal como queremos.
E como assim guerras internas que interferem nas mudanças e na nossa felicidade?
Bem, a gente teima em resistir ao que sentimos, ao que pensamos, às nossas emoções, aos sintomas, às sensações, colocando tudo em gavetas imaginárias, muitas vezes até etiquetadas e torcemos para que nunca mais seja preciso abri-las. Mas andamos confinando partes de nós que são grandes demais para simples gavetas, vivas demais para ficarem contidas. E essa guerra consiste muitas vezes na tentativa de manter essas gavetas fechadas.
Você já viu uma raíz que quebra o concreto, que entorta o passeio, que racha paredes? Já viu certamente plantas que brotam nos locais mais improváveis. Esse é um bom parâmetro de algo vivo que não pode ser contido e que, embora exista a intenção de conter num local determinado, como um canteiro qualquer, a planta não muda, abre caminho.
E quando damos espaço para as plantas, elas prosperam.
O mesmo acontece dentro da gente.
Eu passei a vida numa luta profissional tentando conter a minha criatividade a apenas uma vertente, tentando caber num formato que “comprovadamente vende”. Tentando pertencer a uma classe de trabalho. Sabemos o quanto isso é relevante na nossa sociedade, que as pessoas não querem saber quem você é ou como se sente, mas o que você faz, qual a sua profissão.
Eu sei que a gente aprendeu regras que nos dizem para não sentir, para não falar, para não saber, para não chorar… Ainda me lembro da voz da minha mãe quando dizia “engole o choro!”
Sei que fomos domesticadas, principalmente nós, mulheres, e isso acontece há gerações. Portanto não nos cabe culpar ou lamentar nesse momento, apenas reconhecer. Reconhecer essa parte de nós que acredita ser certo fechar tudo o que sentimos à 7 chaves.
Sabe, nada no nosso corpo, na nossa estrutura inteira QUER nos fazer mal. Vou repetir. Nada no nosso corpo quer nos fazer mal. Tudo o que sentimos quer “apenas” a nossa atenção. Você já tinha pensado nisso dessa maneira?
O que sentimos quer a nossa atenção para nos contar algo profundo que precisa de cuidado, que precisa de alguma mudança. Alguma mudança que nos traga leveza e felicidade.
Hoje em dia quando surge uma dor de cabeça eu paro e me sinto por inteira, me dou espaço. O que está acontecendo em mim? O que está acontecendo ao meu redor? Quais limites ultrapassei? O que eu preciso saber?
E é interessante notar que eu nunca preciso de respostas, mas apenas de me permitir sentir essas questões.
O que noto, muitas vezes é tão simples quanto precisar beber água, descansar, fazer uma caminhada, perceber que tomei café demais.
E quando a dor está forte demais, eu tomo remédio, mas sem perder de vista que algo precisa da minha atenção.
Antes de desenvolver essa consciência, na menor dor de cabeça, eu já tomava o remédio na dosagem mais forte e aproveitava para tomar também o remédio de enjoo para não ficar com enxaqueca. Ou seja, eu me medicava por medo, para evitar sentir algo que achava que podia vir a sentir. Meio louco, não é?
A minha forma de trabalhar mudou, a minha profissão mudou e para mim tudo isso faz parte de uma evolução, um desenvolvimento, não de diferentes recomeços. Além disso hoje eu não ignoro tudo que amo fazer e tudo que posso fazer para me expressar, para fazer chegar ao mundo a minha criação. Hoje eu não me faço caber (pelo menos até onde eu sei) eu vou explorando o meu crescimento no meu ritmo e do meu jeito, como a natureza.
E vamos chegando ao final com a proposta de uma mudança simples:
Ao invés de se organizar internamente como se fosse um armário com gavetas, seja uma casa, um abrigo confortável e seguro, que acolhe tudo o que há em você num quarto espaçoso e bonito.
A minha tristeza costuma sentar numa cadeira bem confortável, se cobrir com uma mantinha leve e fica olhando para o dia lá fora através de uma grande janela, sente a brisa fresca, por vezes tomando um chá, sem ninguém a incomodar. Assim, a minha tristeza me permite avançar na vida, não resiste à mudança. Faz sentido pra você?
Mudança e felicidade.
Se você está AQUI e a sua felicidade está no futuro e a mudança está no percurso e parecem ser coisas separadas…
Pensa naquela árvore cujas raízes partem o solo. Nessa mesma árvore que cresce as suas raízes, folhas caem, secam, galhos se partem, partes suas morrem. E ao mesmo tempo novas folhas brotas, novos galhos surgem, flores se fazem presentes, e no seu tempo frutos amadurecem. Essa mesma árvore serve de abrigo, de alimento para pássaros e outros animais, gera oxigênio fundamental para a nossa sobrevivência. Nada acontece separadamente. A vida é complexa, tudo acontece ao mesmo tempo.
Você merece sentir felicidade.
Então…
Sabendo que há tristeza, onde há felicidade na sua vida?
Como é sentir essa felicidade no seu corpo?
Às vezes ela vem como um calor no coração, como um sorriso sutil no rosto. Sabe, o nosso corpo está sempre no momento presente. Ou seja, a felicidade não está apenas no futuro, ela pode ser sentida aqui e agora também.
Mais.
Quais mudanças você já viveu e sobreviveu? O que você aprendeu com elas? O que se desenvolveu em você a partir dessas experiências?
Por que não viver uma mudança para viver plenamente a felicidade?
Quem sabe aquela que você tem resistido tanto possa acontecer num processo pacífico?
Uma parte boa de sermos adultos é que já temos experiência suficiente para fazermos isso acontecer.
Por hoje é isso.
Muito obrigada pela sua companhia.
Fica bem :)
Cíntia Thurler