Escrever No Feminino
Já faz um tempo que decidi escrever no feminino, e fiz isso porque quando escrevo uma parte minha é ouvinte também, e é muito interessante como me sinto mais parte do texto e da história quando o feminino surge.
Só que quando isso acontece, chegam conselhos de todo lado:
”Ah, mas assim você restringe o discurso SÓ para as mulheres.”
“Assim os homens vão se sentir excluídos.”
”No feminino o texto parece feito para mulherzinhas, cheio de mimimi.”
”A regra da língua portuguesa não é essa, escreve-se no masculino.”
E para que você saiba, a minha lista de emails tem muitos homens e eles leem no feminino sem qualquer problema. E mesmo se tivessem, eu sinto muito, de verdade.
Passei a vida inteira lendo textos claramente direcionados para mulheres no masculino. Feministas que escrevem no masculino. Um mundo descrito em palavras através do masculino.
Mas veja bem, a minha intenção não é causar uma revolução ou levantar uma bandeira feminista. Apenas quero me sentir incluída nas minhas próprias palavras e, por ser mulher, falo para elas porque a forma como sinto a vida é sobretudo feminina.
Nunca excluí os homens, muito pelo contrário, sempre foram bem-vindos. Afinal não existem mulheres sem homens e nem homens sem mulheres. Ambos os sexos fazem parte, bem, toda a variedade de sexo faz parte da humanidade. Mas se li e leio palavras no masculino e consigo me relacionar com elas, os homens conseguem fazer o mesmo ao ler textos escritos no feminino, não é mesmo?
Está é sim uma justificativa, mas não para ME justificar, mas para apresentar a minha forma de ver as coisas e, quem sabe, te convidar a fazer essa reflexão. Seja você mulher ou homem.
Por que tanto desconforto em ler palavras escritas no feminino?
Pra quê tanto desconforto?
Talvez esse incômodo esteja tão profundo que não dê para identificar agora. Talvez pareça que ele não exista. Mas sabe, eu que pensava que ele não existia, e mesmo assim, me vi muitas vezes com raiva pela versão feminina das minhas palavras serem desvalorizadas. Raiva que hoje sei que vem de uma ferida feminina profunda de tantas mulheres que não foram vistas, ouvidas ou cujas palavras foram sequer consideradas ao longo das gerações.
Por que algo só é profissional se estiver escrito no masculino?
Note quão raras são as mulheres femininas que ganham destaque sem ser pela sua sensualidade. Faz parte da nossa realidade masculinizar o feminino, oprimir o feminino para ter um lugar seguro na sociedade.
A minha filha de 12 anos se sente vulnerável na escola se usar uma roupa mais feminina, que destaque o corpo, se sente ameaçada pela naturalidade com a qual os seus colegas do sexo masculino têm de vulgarizar o seu corpo quando é assim. Ela não se sente segura. Os meninos já assistem pornografia. E a professora diz para “deixar pra lá”.
Olha como poucas palavras escritas no feminino nos convidam a olhar para questões estruturais na nossa qualidade de vida, na nossa segurança, na nossa paz.
Esse desconforto vem de uma ferida que precisa ser curada com tempo e gentileza.
Escrevo no feminino para que um dia não seja estranho ler no feminino.
E termino com uma pergunta simples:
Como essas palavras chegam até você? Pode sempre partilhar comigo através do email ola@cintiathurler.com.
Fica bem.
Com amor,
Cíntia Thurler