Eclipse

No eclipse eu vi

a beleza do escurecer

que não vem do pôr-do-sol.

Uma beleza que neutraliza as cores,

deixa tudo mais cinzento

e ainda assim, belo.

Um convite para um novo olhar.

Um convite para valorizar o que é sombra em mim.

Nesse dia vi a maré encher.

A vi transbordar,

exuberante fluir,

os passadiços, lavar.

Vi o sol, aos poucos, assumir a forma de lua.

Ouvi a natureza silenciar…

Os pássaros,

os peixes deixaram de saltar.

Tudo quieto.

Até o vento parou de respirar.

Chá de menta nas minhas mãos,

De frutos vermelhos nas mãos da minha pequena.

O eclipse não foi total aqui,

mas foi suficiente.

Enquanto o sol crescia,

caminhamos de volta.

A paisagem era um presente.

A maré simplesmente esvaziou.

Muita lama,

raízes expostas.

Um passo depois do outro,

um momento que aproveitei.

E sem querer que acabasse…

Parei. Respirei. Me senti e OLHEI

Na lama vi um caranguejo.

“Olha Ivy!”

E tem outro!

E outro.

E mais um.

Nossa, quantos!

Uau.

Quando o sol volta ao normal

e a vida segue.

Ela não esvazia por mais que a maré se vá.

A vida se faz presente

um pôr-do-sol depois do outro.

Capaz de encantar

mesmo quando um grande evento 

já acabou de se apresentar.

Cíntia Thurler

Escritora | Mindfulness Neurocognitivo | Ecopsicologia

Escrevo sobre atenção, ética do cuidado e crise ecológica.

Autocuidado como base para mudanças individuais e coletivas.

https://cintiathurler.com
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